No começo de agosto publiquei um relatório explicando os investimentos que acredito serem os mais adequados para aplicação da reserva de emergência: Tesouro Selic e alguns fundos DI com taxa zero.
Esses fundos, em grande parte, investem no Tesouro Selic, de maneira que ambos os investimentos passaram a ser alvo de críticas quanto a seu uso como reserva de emergência, em decorrência da desvalorização do Tesouro Selic desde meados de setembro.
Preço do Tesouro Selic

Cotas dos fundos DI

Desde o pico, foi uma queda de 1,3%. Nada demais. Mas foi muito para um investimento que deveria apenas se valorizar (a última vez que o Tesouro Selic havia apresentado desvalorização em um mês foi há 18 anos) e para quem não está acostumado em ver quedas em seus investimentos.
Afinal, faz sentido ou não manter a reserva no Tesouro Selic? Existem opções melhores?
Mas antes de partir para essas perguntas, acho bom esclarecer o que está acontecendo agora.
O que tem levado a essas quedas do Tesouro Selic é o alto endividamento do governo brasileiro, que foi potencializado pelos gastos adicionais decorrentes de toda a situação envolvendo o Covid-19, como o auxílio emergencial e os gastos relacionados a saúde.
O que acontece é que o governo tem precisado rolar grandes montantes de dívida (emitir nova dívida para quitar aquelas vincendas). Os valores são tão altos que, aliados a taxas de juros na mínima histórica (principalmente no caso do Tesouro Selic), têm levado os investidores a demandar um deságio no preço do Tesouro Selic para aceitar aplicar nele. Isso porque um preço inferior implica um maior retorno esperado para o investidor.
Como visto no gráfico acima, parte da queda foi recuperada, em parte em decorrência de uma ação conjunta entre Banco Central e Tesouro Nacional, que alteraram a estratégia de oferta de títulos públicos e das operações compromissadas, limitando a frequência, prazos e valores de leilões de operações compromissada.
Mas isso não quer dizer que o Tesouro Selic não possa voltar a se desvalorizar. Entre janeiro e abril de 2021, por exemplo, R$ 643 bilhões, cerca de 15% da dívida interna, vencerá. Esse montante precisará, portanto, ser rolado, o que pode gerar novos impactos negativos nos preços dos títulos.
Mas então, o que é melhor fazer? Vender o Tesouro Selic e resgatar os fundos DI e aplicar tudo na poupança? Num CDB de um banco digital que paga 100% do CDI?
Na minha opinião: não.
Eu já falei essa minha opinião em outros meios, mas resolvi agora dar um pouco mais de explicação do porquê.
O principal motivo é o risco. Para mim, pessoalmente, risco é o fator mais relevante ao aplicar minha reserva de emergência. Claro que também olho retorno, mas esse fator é secundário.
E o que acontece é que, infelizmente, não existe um verdadeiro ativo livre de risco. Todo investimento tem seu(s) risco(s). Sendo assim, é preciso que cada um escolha os riscos que quer correr.
No caso do Tesouro Selic, o risco é de uma nova desvalorização, que, em minha visão dificilmente seria de escala mais significativa. E, é bom lembrar, que essa queda só de fato impacta seu bolso se você resgatar o dinheiro. Se o Tesouro Selic for mantido até o vencimento, o investidor não será impactado por essa desvalorização atual. Então só haveria real impacto no caso da ocorrência do imprevisto (é para isso que serve a reserva, então é um risco).
No caso da poupança, o risco que você corre é o risco de crédito, ou seja, do banco quebrar. Se for a poupança de um dos grandes bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e CEF), de fato o risco é bem baixo, além de existir o FGC. Contudo, apesar de não haver risco de rentabilidade negativa (exceto num evento de crédito), para cada aporte só é possível sacar em um dia específico do mês (data de aniversário), caso contrário perderá toda a rentabilidade acumulada desde a última data de aniversário. Além disso, sua rentabilidade é inferior à do Tesouro Selic.
Já no caso dos CDBs com liquidez diária (se não tiver liquidez diária, não serve como reserva), a lógica é parecida com a poupança, mas sem a existência da data de aniversário. Se você aplicar num CDB de um desses bancos supracitados, não há rentabilidade negativa e o risco de crédito será bastante baixo. Contudo, nem sempre esses bancos oferecem CDBs com liquidez diária com taxas atrativas. Então é o preço que se paga…
Caso você opte por CDBs de maior rentabilidade oferecido por bancos menores, como os bancos digitais que tenho analisado nas últimas semana, o risco de crédito já fica mais relevante. E mesmo que o FGC cubra um eventual calote, pode demorar para você efetivamente receber seu dinheiro de volta. Assim, além de ficar sem liquidez por um tempo, você perderá a rentabilidade do período.
Eu, particularmente, não gosto de utilizar CDBs desses bancos mais arriscados como reserva. Como já disse, para essa finalidade dou mais valor a baixo risco do que a alta rentabilidade. Prefiro ficar tranquilo com minha reserva em ativos de baixíssimo risco de crédito e poder utilizar o resto do portfólio para efetivamente ganhar dinheiro.


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